Chanel Nº 5
- Casa
- Chanel
- Ano
- 1921
- Perfumista
- Ernest Beaux, Jacques Polge
- Concentração
- EDP
- Família
- Floral
- Subfamília
- Floral
- Acorde
- Chipre
Nº 5 é de 1921, de Ernest Beaux, criado como extrait. A Eau de Parfum é reinterpretação de Jacques Polge, de 1986, segundo a casa, e não é a mesma composição em outra concentração. Ficha e análise descrevem a EDP.
Segundo a casa, citada em fonte especializada, a fórmula mudou pouco desde a criação, exceto pela exclusão da civeta natural e de certos almíscares nitrados. Não há histórico publicado da EDP. Pendência assumida.
Arquétipo AR02 · Flacon quadrado
Aldeídos em sobredose sobre rosa e jasmim: a flor dissolvida numa abstração que não imita flor nenhuma.
Notas
Topo
- AldeídosCasa
- NeroliCasa
- Ylang-ylangCasa
- BergamotaEspecializada
Coração
- RosaCasa
- JasmimCasa
- Íris (orris)Especializada
Fundo
- BaunilhaCasa
- Casa
- declarada pela própria marca
- Especializada
- de fonte especializada
Como cheira
A abertura não cheira a flor nenhuma, e é esse o ponto. Os aldeídos chegam primeiro: um brilho seco, ceroso, levemente metálico, que lembra sabão fino, pele limpa, vela recém-apagada. Por baixo há cítrico, néroli e ylang-ylang, mas eles não aparecem como notas separadas — ficam incorporados a esse brilho, como luz atrás de vidro fosco.
O coração é rosa e jasmim, as duas flores que a casa declara como matérias de Grasse. Elas estão em dose alta, mas o que se percebe não é "rosa" nem "jasmim": é um floral único, cremoso e abstrato, em que as flores perderam o contorno. Os aldeídos fazem esse trabalho de dissolução. É por isso que muita gente acha Nº 5 difícil de descrever: ele foi construído para não ser reconhecível como uma coisa só.
O fundo da Eau de Parfum é baunilha, e a casa a declara expressamente: é ela que dá à EDP um rastro mais quente, ambarado e arredondado do que o da composição original. Há também um pó discreto, de íris, que as fontes especializadas registram e que a lista de ingredientes sustenta.
O que muita gente descreve como "perfume de avó", "cheiro de batom" ou "perfume clássico" é leitura nossa da história cultural do perfume, não dado olfativo. O que a composição entrega, em termos de mecanismo, é um floral em que os aldeídos apagam a figura da flor e deixam só a sensação dela.
Por que é referência
Primeira: aqui a flor é dissolvida, não imitada. Antes de Nº 5, um perfume floral queria parecer uma flor. Os aldeídos alifáticos, em dose que a perfumaria da época não usava, mudaram o objetivo: em vez de reproduzir rosa e jasmim, a composição os funde numa coisa que não existe na natureza. A própria casa descreve o resultado como o primeiro perfume abstrato. O mecanismo é químico antes de ser estético: os aldeídos têm difusão alta e um cheiro que não é de nada, e por isso servem como uma camada que embaralha as matérias que estão embaixo.
Segunda: é o mesmo gesto técnico do Shalimar, com o resultado oposto. Nº 5 e Shalimar são quase simultâneos e fundados, os dois, na sobredosagem de um sintético — aldeídos aqui, etilvanilina lá. O gesto é o mesmo: usar uma molécula nova numa dose que nenhum material natural permitiria. O resultado é contrário: o Shalimar é calor e contraste; o Nº 5 é abstração e fusão. Cheirar os dois em sequência é a forma mais clara de entender que o sintético não serve para imitar o natural mais barato — serve para fazer o que o natural não faz.
Terceira: a Eau de Parfum é outro perfume, e a casa diz isso. Nº 5 é de 1921, de Ernest Beaux. A Eau de Parfum que se compra hoje é de 1986, uma reinterpretação de Jacques Polge, e a casa a apresenta assim. A diferença mais audível é o fundo: a baunilha declarada dá à EDP um rastro ambarado que a composição original não tinha nessa medida. Saber qual Nº 5 se está cheirando muda o que se pode concluir dele.
Perfil nos seis eixos
Comportamento
- Longevidade
- 7 h
- Projeção
- Média
- Estação
- Outono/Inverno
- Ocasião
- Noite
Observação de uso
Os aldeídos dominam os primeiros minutos e são a parte mais difusiva: é nesse momento que o perfume ocupa mais espaço. Depois o floral assenta e o perfume se mantém num patamar estável, cremoso, por muitas horas, com a baunilha ficando mais nítida no fim.
Na roupa, aldeídos e baunilha persistem de forma desigual: o brilho seco da abertura volta toda vez que o tecido é movido, enquanto na pele ele some cedo.
Exercício comparativo
Chanel Nº 5 comparado com ShalimarGuerlain
Dois perfumes quase simultâneos, cada um fundado numa sobredosagem sintética — etilvanilina aqui, aldeídos ali. O mesmo gesto técnico produzindo estéticas opostas: calor contra abstração.
Chanel Nº 5 comparado com J'adoreDior
Duas formas de abstrair a flor. No Nº 5, os aldeídos dissolvem rosa e jasmim num brilho seco que não cheira a flor nenhuma; no J'adore, os salicilatos e o ylang fundem três flores num bloco cremoso e quente. Uma abstração por brilho, outra por calor.
Vizinhança
Subfamília
Floral
Flores em primeiro plano, de bouquet a solifloro.
Outros perfumes nesta subfamília
- J'adore · Dior
Acorde
Chipre
Seco, amargo, elegante, terroso-aristocrático
Outros perfumes com este acorde
- Coco Mademoiselle · Chanel
- Mitsouko · Guerlain
Família Floral
Outras subfamílias
- Alien · Mugler
- Gucci Bloom · Gucci
- Chance Eau Tendre · Chanel
- Miss Dior Blooming Bouquet · Dior
Método e procedência
- Situação da ficha
- Verificada em
- Fonte das notas
- Chanel — página oficial do produto (Eau de Parfum): aldeídos, rosa de maio, jasmim de Grasse, notas cítricas, néroli, ylang-ylang e baunilha bourbon; data a EDP de 1986, por Jacques Polge. Lista de ingredientes (componentes obrigatórios). Camada especializada: Fragrantica, para camadas, bergamota e íris.
- Procedência por nota
- AldeídosCasa · Chanel — página oficial do produto (aldeídos) ·
- RosaCasa · Chanel — página oficial do produto (rosa de maio) ·
- JasmimCasa · Chanel — página oficial do produto (jasmim de Grasse) ·
- NeroliCasa · Chanel — página oficial do produto (néroli) ·
- Ylang-ylangCasa · Chanel — página oficial do produto (ylang-ylang) ·
- BaunilhaCasa · Chanel — página oficial do produto (baunilha bourbon) ·
- BergamotaEspecializada · Fragrantica; convergente com as notas cítricas declaradas pela casa ·
- Íris (orris)Especializada · Fragrantica; ionona (alfa-isometil ionona) na lista de ingredientes ·
Procedência e decisões de ficha
Ficha verificada em 17/10/2026. A Chanel nomeia, na página oficial da Eau de Parfum, os aldeídos, a rosa de maio, o jasmim de Grasse, as notas cítricas, o néroli, o ylang-ylang e a baunilha bourbon, e data a EDP de 1986, como reinterpretação de Jacques Polge sobre a composição de Ernest Beaux. A casa não publica pirâmide; as camadas seguem a listagem especializada (Fragrantica).
Duas notas entraram como Especializada. A bergamota, porque a casa declara "notas cítricas" sem especificar, e a listagem especializada especifica. A íris, porque a casa não a nomeia, mas a listagem especializada a registra e a lista de ingredientes traz uma ionona, a família de moléculas do pó de íris e violeta. Nos dois casos o indício acrescenta à casa sem contradizê-la.
A lista de ingredientes ajuda pouco. A Chanel publica só os componentes de declaração obrigatória. Ela confirma a presença de moléculas compatíveis com a ficha — ionona, cumarina, eugenol —, mas não permite promover nenhuma matéria nova.
O que ficou de fora, e por quê:
- Sândalo, vetiver, patchouli e musgo de carvalho — só uma listagem especializada os registra para a EDP, sem convergência com a casa nem com a lista de ingredientes. O sândalo e o almíscar branco estavam na planilha como leitura sem fonte; as duas linhas foram aposentadas.
- Pêssego e lírio-do-vale — mesma situação: fonte especializada isolada.
Eixo animálico baixado de 3 para 2. Segundo a casa, citada em fonte especializada, a civeta natural saiu da fórmula. A EDP atual é cremosa e ambarada, não animálica.
Pendência assumida: histórico de fórmula da EDP. Não há registro público de reformulação da Eau de Parfum. Sem fonte, não afirmamos.
Referência de estudo. Este guia não tem vínculo com as casas de perfume mencionadas.